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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Área Ardida no Grande Incêndio de 15-16 de Outubro de 2017:

 
Burnt areas in the great fire of 15 and 16 October of 2017:

The days 15 (a Sunday) and 16 (a Monday) of October of 2017 were days of tragedy in the Center Region of Portugal, with several huge fires devastating the region and causing more than 40 deaths.

In 15 of October, in a day with unusual weather conditions for this time of year, with high temperatures, very low humidity and strong winds, in a year of extreme drought, more than 500 fires started in the whole country in just one day, with several becoming huge fires, mainly in the Center Region. There are obvious suspicions that organised crime is behind many of these fires.

One of these huge fires devastated the sub-region of Gândara during two days (15 and 16), causing unthinkable damages in the municipalities of Mira (most devastated municipality), Cantanhede, Figueira da Foz and Vagos, destroying forestry areas, agricultural lands, houses, factories and vehicles.
This fire devastated nearly three quarters of the area of my Civil Parish, Tocha.

I made a few prints of maps, using this site (click), showing the burnt areas in the sub-region of Gândara and in the Center Region of Portugal (areas in orange and red, during the fires of 15 and 16 of October of 2017, and since the beginning of the year (areas in yellow and light blue)).
  

Área Ardida no Grande Incêndio de 15-16 de Outubro de 2017: 
(Actualizado em 25/10/2017:)
Tal como milhares de Gandareses, ainda estou incrédulo e sem palavras para exprimir o que sinto em relação ao desastre que se abateu sobre esta região nos dias 15 e 16 de Outubro de 2017 (um Domingo e uma Segunda-feira), em que um terrível incêndio devastou a maior parte das áreas de florestas nacionais e terrenos privados do Litoral da Gândara, com prejuízos incalculáveis em habitações e seus anexos, instalações industriais, matas nacionais, plantações de árvores para produção de madeiras industriais ou de fruticultura, terrenos agrícolas e veículos. Em termos pessoais, também tive alguns prejuízos, mas tenho consciência de que há milhares de pessoas que certamente estarão muito pior do que eu. 
Fazendo uma estimativa por alto, pela visualização de mapas e pelas voltas que já dei pelo terreno, diria que cerca de 3/4 da área da minha freguesia (Tocha) terá ardido neste incêndio.

Este incêndio começou ao princípio da tarde do dia 15/10/2017, na freguesia de Quiaios, no Concelho da Figueira da Foz, e propagou-se rapidamente para Norte, por acção dos ventos fortes, atingindo sucessivamente os concelhos de Cantanhede, Mira e Vagos.

E apesar de tudo isto, a destruição ocorrida na Gândara foi apenas uma parte da destruição total que se abateu sobre Portugal e sobretudo sobre a Região Centro do país, nestes dias fatídicos. Foi no Interior-Centro do País que se concentrou a maior parte da área ardida, a quase totalidade das mais de 40 vítimas mortais (que já ultrapassam as 100 em 2017), bem como o maior número de habitações e instalações empresariais destruídas, não esquecendo as pessoas desalojadas.

Sobre as origens destes incêndios, muito haveria para falar.

Tentando resumir os acontecimentos, nestes dias, factores meteorológicos pouco comuns causaram temperaturas elevadas para a época do ano, com humidade do ar reduzida e ventos fortes a soprarem de direcções distintas, num ano de seca extrema com severos efeitos na vegetação e nos solos. Possivelmente efeitos nefastos do Aquecimento Global.

Há fortes suspeitas, enraizadas nas populações locais, de que estas condições naturais explosivas terão sido aproveitadas ao máximo por organizações criminosas bem organizadas, porque é muito difícil acreditar que os mais de 500 incêndios que surgiram em Portugal no dia 15/10/2017, tenham sido todos causados por pirómanos incendiários individuais, negligência humana (queimadas, cigarros...) ou causas naturais. A isto se junta o histórico de casos suspeitos do passado. Ou os números extraordinários de incêndios que começam de noite e madrugada. E mais não digo...

O facto é que no dia 15/10/2017 ocorreram dezenas de incêndios de grande dimensão por todo o país, sobretudo no Centro e Norte de Portugal Continental.

Com esta dispersão de grandes incêndios, tornou-se difícil enviar reforços em bombeiros, viaturas e meios aéreos para outras regiões, impedindo a concentração de meios que é possível quando há apenas um ou dois incêndios de grande dimensão a ocorrerem no país.

Como resultado deste contexto, as várias regiões afectadas pelos grandes incêndios quase só puderam contar com os meios das corporações locais de bombeiros, em homens e viaturas, bem como das próprias populações locais, que se mobilizaram com as suas ferramentas e alfaias agrícolas. E estes meios reduzidos foram manifestamente insuficientes para travar os enormes incêndios que ocorreram, apesar da entrega e heroísmo de quem esteve no terreno. Com algumas dezenas de homens e viaturas não é possível controlar frentes de incêndio de muitas dezenas de quilómetros.
O próprio David da Bíblia tinha maiores probabilidades de sucesso quando lutou contra Golias.

Este contexto desfavorável obviamente não iliba de sérias responsabilidades o Governo actual e os anteriores, porque muito foi negligenciado ao nível da prevenção, da organização e coordenação de meios, da dotação de meios humanos e materiais, do planeamento florestal e urbano, bem como da investigação e punição de comportamentos criminosos. O facto de aproximadamente metade da área ardida na Europa se situar num único país, Portugal, é um sintoma evidente de que algo vai muito mal por cá.


Voltando à Sub-Região da Gândara, para dar ao leitor uma ideia aproximada das áreas afectadas por este grande incêndio, tirei alguns prints da área ardida no site no Programa Copernicus, da União Europeia:




(Aconselho também a abrir esta imagem:)









Área ardida nas zonas mais afectadas da Região Centro, durante a última semana:



Área ardida nas zonas mais afectadas da Região Centro, desde o início do ano, englobando a semana passada (áreas a vermelho) e desde o início do ano (áreas a azul-claro, amarelo e laranja), englobando por exemplo a área atingida pelos trágicos incêndios de Pedrógão Grande (que provocaram 64 vítimas mortais), ou, para dar um exemplo mais perto da Gândara, os incêndios que ocorreram este Verão entre Cantanhede, Mealhada e Coimbra:

As áreas coloridas representam a área que já ardeu nesta parte da Região Centro durante este ano, a laranja na semana passada, a amarelo durante o mês passado e a azul-claro desde o início do ano. Foi um ano absolutamente catastrófico para a Região Centro!



Antes deste incêndio de proporções que antes eram inimagináveis para os gandareses, a referência anterior em termos de pior catástrofe era o grande incêndio ocorrido no Verão de 1993, que durante uns três ou quatro dias devastou a floresta litoral da Gândara, entre a Figueira da Foz e Mira.

Se o leitor quiser obter informações históricas sobre o grande incêndio de 1993, que agora certamente cairá no esquecimento, poderá consultar este estudo científico:

https://www.uc.pt/fluc/nicif/Publicacoes/Colectaneas_Cindinicas/Download/Colecao_IV/Artigo_VII.pdf



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Arte Xávega III - Evolução a partir dos anos 60, até à atualidade:

A Arte Xávega tradicional era uma actividade que necessitava de bastante mão-de-obra, em que cada "Companha" de pescadores costumava ter várias dezenas de pessoas a trabalhar.
Contudo, nos finais da década de 60 e princípios da década de 70, a Arte Xávega sofreu uma carência de mão-de-obra. Sendo uma actividade de rendimentos baixos, incertos e sazonais, perdeu muitos pescadores que nesta época optaram pela Emigração ou por procurar trabalho em outras ocupações profissionais mais bem remuneradas e estáveis que foram surgindo no país.
Paralelamente, nesta altura também surgiram no mercado motores de popa (ou motores fora de borda) a preços acessíveis.

Estes dois factores conjugados (a falta de mão-de-obra e o surgimento no mercado de motores fora de borda a preços acessíveis), conduziram a uma primeira revolução na Arte Xávega tradicional. Os novos barcos construidos a partir desta altura, adaptados para serem propulsionados a motor, diminuíram bastante de tamanho (uma vez que já não necessitavam de acomodar dezenas de remadores) e passaram a ir ao mar com tripulações reduzidas de 3 a 6 homens. Muitos barcos ainda conservaram um par de remos, para serem usados em caso de avaria do motor e para impulsionar os barcos durante os primeiros metros de entrada no mar, até a embarcação atingir uma profundidade suficiente para utilizar a hélice sem esta tocar no fundo de areia e pedras.

A Arte Xávega manteve-se assim durante aproximadamente 20-25 anos, até que em meados da década de 90 passa por uma segunda revolução, assente na mecanização. Foram introduzidos tratores especialmente modificados que permitiram libertar os homens e as juntas de bois/vacas (estas últimas desapareceram deste tipo de pesca) de grande parte do esforço físico que ainda faziam. Estes tratores modificados passaram a:
- Puxar as redes, através de cabrestantes/guinchos/molinetes (não sei a terminologia correta) montados na sua parte traseira.
- Empurrar os barcos para o mar, através de um braço articulado instalado à frente. Isto fez com que os barcos já não precisassem de utilizar os remos durante os primeiros metros da entrada no mar.
- Puxar os barcos do mar para a praia.
- Rebocar atrelados com diversas cargas.

Algum barcos foram dotados de rodas de automóvel para facilitar a sua deslocação na praia, quando empurrados ou puxados pelos tratores. Vários barcos deixaram mesmo de ter remos, enquanto outros ainda os conservam para utilizar em caso de avaria do motor ou por tradição.

Contudo, este período também trouxe novas adversidades à Arte Xávega, ao nível da Burocracia e Legislação Estatal, que por vezes não levam em conta as especificidades deste tipo de pesca tradicional. As regras rígidas do Estado, apesar de terem boas intenções como a conservação dos recursos marinhos ou a segurança alimentar, complicam bastante a vida aos pescadores que ainda resistem.

Qual será a próxima revolução da Arte Xávega, se sobreviver por mais algumas décadas? Talvez a inclusão de dispositivos eletrónicos? Talvez nos materiais? Já foram construídos barcos em fibra de vidro e alumínio (resistente à corrosão), substituindo a tradicional madeira e o ferro. Pelo menos um destes barcos já pesca na Praia de Mira há alguns anos!

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Arte Xávega II - À Moda Antiga.

A Arte Xávega tradicional praticada nos tempos antigos, até às décadas de 60 e 70 do século XX, apresentava algumas diferenças em relação à que actualmente ainda se pratica nas praias de Mira ou da Tocha, no Litoral Gandarez, bem como em alguns outros pontos da costa portuguesa onde ainda sobrevive. É essa antiga Arte Xávega que vou tentar apresentar ao leitor de forma resumida.

Nesses tempos remotos, os barcos eram bastante maiores do que agora (com o dobro, o triplo ou até mesmo o quádruplo do tamanho), para acomodarem tripulações numerosas de 15 a 50 homens durante as idas ao mar, sendo que a maior parte deles eram remadores que manuseavam os pesados remos da embarcação. Cada barco tinha um ou dois pares de grandes remos, que podiam necessitar de 4 a 10 remadores cada.

Para puxar ou empurrar estes pesados barcos do/para o mar, usavam-se carris móveis improvisados de madeira e troncos, sobre os quais as embarcações eram roladas na praia.

Se no mar o esforço braçal físico exigido aos pescadores era hercúleo, as tarefas pesadas a efectuar no areal da praia também não ficavam atrás. Por isso, em muitas localidades costeiras, as "Companhas" de pescadores passaram a usar várias juntas de bois/vacas para efectuar os trabalhos mais pesados em terra, como puxar as redes e colocar/recolher o barco no/do mar. Assim aconteceu na Praia de Mira (ou Palheiros de Mira), onde estas juntas de bois/vacas se tornaram bastante comuns.

Contudo, na Praia da Tocha (ou Palheiros da Tocha) não se adoptou o uso de juntas de bois/vacas nas tarefas da Arte Xávega, embora as carroças puxadas por gado bovino fossem utilizadas no transporte de materiais entre a praia e as localidades mais próximas. Quais as principais razões para isto? Confesso que não sei!

Mas penso que poderá ter a ver com razões de ordem logística. A Praia da Tocha dos tempos antigos era um lugar bastante isolado e de difícil acesso por caminhos arenosos no meio das dunas, que ficava a vários quilómetros de distância dos campos agrícolas e pastagens razoáveis mais próximas. Neste contexto, manter e alimentar em permanência várias juntas de bois/vacas na Praia da Tocha seria bastante difícil em termos logísticos. Ao contrário, na Praia de Mira, existiam campos agrícolas a poucas centenas de metros do areal, onde se podiam pastar bois e vacas ou cultivar plantas forrageiras.

Voltando à Praia da Tocha, e considerando o elevado esforço físico necessário para efectuar as tarefas da Arte Xávega, resultava que muitas vezes o número de homens da "Companha" era insuficiente para o trabalho necessário.

Por isso desenvolveu-se um sistema de "quinhão" na Praia da Tocha, em que qualquer "não-pescador" interessado em ajudar a puxar as redes (e outras tarefas), podia dar o seu nome (que era registado num papel), trabalhava juntamente com os pescadores e no fim recebia um pequeno "quinhão" variável de peixe, que dependia da quantidade pescada nessa ida ao mar.

Devido à utilidade do "quinhão" de peixe ou por simples curiosidade e vontade em participar, muitos eram os "não-pescadores" que colaboravam na Arte Xávega praticada na Praia da Tocha, fossem eles habitantes das aldeias mais próximas, amigos dos pescadores, forasteiros de passagem, curiosos, veraneantes ou turistas.

Deixo aqui alguns vídeos antigos retirados do Youtube, filmados em película nos velhos tempos do cinema a preto e branco, que nos dão um retrato fiel de como era a Arte Xávega à moda antiga:

Onde os Bois Lavram o Mar. Filme incompleto, filmado em 1959 na Praia de Mira (no Concelho de Mira).

 

Mudar de Vida. Filme português de 1966, realizado pelo cineasta português Paulo Rocha (1935-2012) (Clicar!). As cenas do filme que decorrem entre os minutos 34 e 41 da película, filmadas em 1966 na Praia do Furadouro (no Concelho de Ovar), dão um retrato bastante realista de como era a Arte Xávega nesta época.


Fishy Business In Portugal. Curta-metragem de actualidades cinematográficas, filmada em 1935 em Portugal.


 
Mais alguns vídeos retirados do Youtube:

Reconstituição parcial da Arte Xávega antiga na Praia da Tocha (Reportagem SIC):

Reconstituição em Espinho:


Reconstituição na Praia da Torreira (no Concelho da Murtosa):



Algumas fotografias dos painéis de azulejos existentes na Capela da Praia da Tocha (tiradas em Julho de 2007), que retratam cenas da antiga Arte Xávega que se praticava nesta localidade. Estes azulejos, baseados em fotografias antigas, foram pintados pelo Sr. Jorge Guerra, artista especializado neste tipo de trabalhos.
A primeira fotografia mostra o transporte de um barco de pesca recém-construído para a Praia da Tocha. Vários dos barcos que aí se utilizaram até meados do século XX, foram construídos num estaleiro artesanal que se situava na parte Noroeste do Largo da Tocha, na zona situada entre a Igreja e a Casa Paroquial.







 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Arte Xávega I - O que é a Arte Xávega?









I - O que é a Arte Xávega?


A Arte Xávega é uma técnica tradicional de pesca costeira de arrasto, por cerco, muito antiga, cuja origem, secular ou milenar, se perde na noite dos tempos. Actualmente encontra-se em risco de desaparecimento, numa fase de contínuo declínio que vem desde a década de 60.

Nos dias de hoje, esta arte piscatória ainda é praticada por algumas centenas de pescadores, em algumas localidades costeiras de Portugal, incluindo a Praia de Mira e a Praia da Tocha (ambas na Região da Gândara). Também ainda é praticada na Praia da Vagueira, no Concelho de Vagos, mas que não incluo na Gândara por já estar situada na Região Tradicional da(s) Gafanha(s). Também chegou a ser praticada no passado na Praia de Quiaios, no Concelho da Figueira da Foz.

Hoje tem um carácter sobretudo sazonal, sendo praticada essencialmente nos meses do Verão e do fim da Primavera, quando o mar se encontra mais calmo e abundam os clientes para o pescado (aproveitando a época turística).

Outrora muito praticada ao longo de toda a costa portuguesa, entrou em decadência nas décadas de 60 e 70 do século XX, tendo desaparecido de grande parte das localidades costeiras do país. Nos locais onde sobreviveu, passou por um processo de modernização tecnológica, que lhe permitiu trabalhar com um número bastante mais reduzido de pescadores, bem como poupar estes do esforço muscular hercúleo que lhes era exigido no passado. Apesar destas transformações, esta arte ainda conserva um carácter tradicional, em que sobrevive muita da herança histórica, cultural e social de tempos passados.



Há um século atrás, o panorama era bem diferente da actualidade, com muitos milhares de pescadores e centenas de barcos espalhados por muitas das localidades costeiras de Portugal, aproveitando cada trégua concedida pelo mar para pescar.

Como funciona a Arte Xávega?

Para ajudar à compreensão do funcionamento desta arte tradicional de pesca, coloco aqui duas figuras que fiz em 2013 (com umas modificações mais recentes). Alerto os leitores que estes esquemas foram feitos por mim baseados no que conheço da Arte Xávega (a partir do que que vi, li e ouvi ao longo da minha vida), por isso o seu rigor poderá ser objecto de algumas críticas por quem verdadeiramente conhece e pratica esta arte.

Os sucessivos passos de uma ida ao mar encontram-se descritos em sucessão numérica nas figuras seguintes, que aconselho que sejam abertas numa nova janela do browser no seu tamanho real:

1 - O barco, em forma de meia-lua, que se encontra na praia previamente carregado com centenas ou milhares de metros de cordas e redes, é empurrado para o mar. À medida que avança, vai desenrolando e colocando no mar uma corda, cuja extremidade fica solidamente presa no praia.
Durante esta fase perigosa, o barco segue a direito pelo mar adentro, cortando as ondas na sua zona de rebentação.

2,3 - Ultrapassada a zona de rebentação, o barco vira de lado e inicia um longo percurso no mar que o leva a quase completar um círculo (ou um "O"), ante de iniciar a manobra de regresso à praia. Vai continuando a lançar a corda ao mar.

4,5 - O barco começa agora a lançar a primeira metade da rede de pesca propriamente dita ao mar.

6 - O barco atinge a metade do seu percurso e lança ao mar o saco da rede, onde mais tarde ficará retido o peixe. Este saco é marcado por uma grande bóia, destinada a ser visível ao longe a partir da praia, que servirá de referência visual durante as manobras para puxar as redes.

7 - O barco inicia o seu percurso de regresso, enquanto vai colocando no mar a segunda parte da rede de pesca.

8 - É colocada no mar a segunda metade da corda.

9, 10 - O barco termina o seu percurso no mar em forma de quase círculo (ou um quase "O" ) e vira directamente a proa para a praia, entrando na zona de rebentação das ondas, iniciando a manobra de saída do mar.

11- O barco lança-se a grande velocidade em direcção à praia até encalhar na areia, sendo então preso com cordas e puxado para a praia, até ficar num lugar seguro fora do alcance da água do mar lançada pelas ondas na praia. Ao sair do mar, o barco traz consigo a segunda corda das redes. 

12 e Figura II - Processo de puxar as redes:
(Tarefa lenta, que costuma demorar entre uma a duas horas, dependendo das dimensões das redes de pesca utilizadas.)

Na praia, a partir dos dois pontos de entrada e saída do barco no mar (que podem distar algumas centenas de metros entre si), as duas cordas começam a ser puxadas lentamente. À medida que as cordas vão sendo puxadas em dois pontos diferentes da praia, um deles ou ambos aproximam-se do outro por fases sucessivas, para ir fechando lentamente a rede de arrasto que vai cercando os cardumes de peixe.

Quando acabam as cordas e as duas pontas da rede de arrasto chegam à praia, os peixes ficam encurralados no seu interior. Depois vão ficando progressivamente concentrados no saco da rede, à medida que o resto da rede é puxado para a praia.

Nesta altura final, as duas pontas da rede já estão a ser puxadas de locais muito próximos, quase lado a lado, até que finalmente o saco da rede é puxado para a praia.

Uma vez que a tradicional Arte Xávega não dispõe ainda de tecnologias piscatórias de ponta, como sonares para localizar os cardumes de peixe ou sensores nas redes, é apenas nesta fase que os pescadores finalmente conhecem o rendimento que lhes proporcionou cada ida ao mar trabalhosa, pois o saco tanto pode vir cheio de peixe como quase vazio. Esta é sempre a fase do processo que suscita mais emoções fortes na praia e que costuma reunir uma multidão de pessoas à sua volta, entre pescadores, clientes, curiosos e turistas.

Depois o saco da rede é aberto, o peixe retirado, separado por espécies em cabazes e encaminhado para o mercado por diversas vias.
 
Nota: A descrição que fiz anteriormente relata como funciona a Arte Xávega em termos genéricos. Contudo existem algumas diferenças entre a Arte Xávega do Passado e a da Actualidade, bem como existiram fases de transição e evolução nos anos 60 a 90. Para saber mais sobre isso, não perca os próximos capítulos:

Arte Xávega II - À Moda Antiga.
Arte Xávega III - Evolução a partir dos anos 60, até à atualidade.
Arte Xávega IV - A Arte Xávega no Presente.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Os movimentos migratórios da Gândara para a Península de Setúbal no século XIX – a origem de Pinhal Novo:

Nota do autor: o texto que se segue é da autoria da Sra. Célia Gomes, leitora deste blog, a quem agradeço a amabilidade de ter aceite o meu convite para o escrever. A Sra. Célia Gomes, residente na Freguesia de Pinhal Novo (no Concelho de Palmela), descende de antepassados Gandareses que se fixaram na Península de Setúbal no século XIX. 
É também a autora do interessante Blog Origens Caramelas, Raízes Gandaresas (clicar para entrar no blog), (também disponível no Facebook (clicar para entrar)), onde apresenta os resultados das suas pesquisas sobre os percursos de vida de alguns desses Migrantes Gandareses do passado. Na leitura deste blog, o Gandarez da actualidade irá certamente descobrir apelidos e locais de origem que lhe são familiares!
 
Os movimentos migratórios da Gândara para a Península de Setúbal no século XIX – a origem de Pinhal Novo:
 
No distrito de Setúbal, o termo “caramelos“ denomina os trabalhadores oriundos da região gandaresa que no passado se deslocavam para essa região sazonalmente, especialmente para realizar trabalhos rurais; com o decorrer do tempo, este significado alargou-se também aos seus descendentes. Não se conhece com precisão a origem desta significação da palavra “caramelos“; há quem defenda que assim se chamavam porque os jornaleiros gandareses chegavam em pleno Inverno, no tempo do gelo, que antigamente também se designava por caramelo, regressando às suas aldeias após as colheitas, no final de Junho; há também quem afirme que o vocábulo se deve à cor pálida destes trabalhadores, devido às “febres e terçãs“ de que padeciam cronicamente, provavelmente devido às águas das muitas lagoas da Gândara ou em consequência dos trabalhos nos campos de arroz. Da mesma forma, não é possível determinar cronologicamente o início dessas migrações sazonais. No entanto, um conceituado historiador local do concelho de Palmela, António de Matos Fortuna (1930 / 2008), encontrou um registo na paróquia de São Lourenço de Azeitão (concelho de Setúbal ), datada de 1613, referente ao batismo de um caramelo.

Posteriormente, em particular a partir do início do século XIX, assistiu-se à chegada de um grande número de trabalhadores gandareses ao concelho da Moita e arredores; se muitos desses trabalhadores regressavam às suas terras no final da época de trabalhos, a verdade é que volta de 1830, já viviam inúmeras famílias gandaresas na região, numa área que integra os concelhos de Palmela, Moita e Montijo. Mas é nos registos da Paróquia de Palmela, a partir de 1850 e particularmente após 1860, que comprovamos o movimento migratório massivo de gandareses que vieram estabelecer-se nesta freguesia, especialmente na área correspondente à atual vila e freguesia de Pinhal Novo.

É importante salientar que o Pinhal Novo não existia nessa época, era um território completamente despovoado, onde dois fatores fundamentais se conjugaram para dar origem a uma nova povoação que não parou mais de crescer até aos nossos dias: em primeiro lugar, a construção do primeiro troço de caminho-de-ferro a sul do rio Tejo (inaugurado em 1857), com passagem neste território; em segundo lugar, o casamento de D. Maria Cândida Ferreira Braga, Baronesa de São Romão (1815-1878), proprietária destas terras, com José Maria dos Santos (1831 / 1913), veterinário lisboeta, em 1857. Este abandonou a sua profissão para se dedicar à gestão das propriedades da mulher; impulsionado pelo caminho-de-ferro, que veio permitir o escoamento dos produtos agrícolas, este proprietário decidiu tirar o máximo proveito das suas terras; como a mão-de-obra era insuficiente, recorreu aos trabalhadores gandareses e do baixo mondego, fixando-os através de um processo de colonização de terras; segundo Oliveira Martins, José Maria dos Santos fixou “ 400 casais ocupando 2.000 hectares divididos em courelas de 4 a 6 hectares. Os colonos foram implantados por contratos de arrendamento e procedem da Beira. Pagam a renda de 1$000 reis por hectare “ [Martins, Oliveira (1956), Fomento Rural e Emigração, Lisboa, Guimarães Editores, pág. 47]. Quando faleceu, em 1913, José Maria dos Santos deixou as terras arrendadas, em testamento, aos seus rendeiros. Concluindo, a influência gandaresa impôs-se na região, na arquitetura das casas, nas tradições agrícolas, na gastronomia, no vestuário e na linguagem.

Pessoalmente, posso comprovar que os meus antepassados gandareses que se fixaram nesta zona foram essencialmente meus trisavós e quartos avós e todos se instalaram entre os concelhos da Moita, Palmela e Montijo, mas a maioria fixou-se precisamente na área de Pinhal Novo. A maioria veio das antigas freguesias da Tocha e de Cadima; outros, em menor número, vieram de Mira, Arazede, Ferreira-a-Nova e Quiaios. Tenho verificado que muitos dos apelidos observados nos registos paroquiais das freguesias gandaresas são vulgaríssimos no território de Palmela, Montijo e Moita. Por outro lado, muitos deles foram substituídos por alcunhas ou pelos topónimos de origem destes antepassados, os últimos dos quais são hoje relativamente comuns; como exemplos, posso citar os sobrenomes Amieiro, Cadima/Cadimas, Cantanhede, Carromeu, Mira, Pelixo / Pelicho, Ramalheiro, Seixo, Tocha. Finalmente, é importante salientar que as migrações dos gandareses para esta região não se limitaram a esta época, pelo contrário, elas estenderam-se pelo século XX, tendo como principal destino a grande Herdade de Rio Frio, que já foi considerada a maior da Península Ibérica, propriedade de José Maria dos Santos. O fenómeno das migrações dos gandareses para a região tem sido alvo de vários estudos, principalmente no Pinhal Novo, cuja Junta de Freguesia editou, nos últimos anos, uma coleção dedicada à história e às origens desta vila e freguesia, intitulada “ Origens e Destinos “. Uma das obras publicadas, da autoria de José Cabrita, intitula-se precisamente: “Entre a Gândara e a terra galega”.

Célia Gomes


Localização da Vila de Pinhal Novo, no Concelho de Palmela:


A Península de Setúbal:

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A Grande Tempestade de 19/01/2013:

Há precisamente dois anos, na madrugada do dia 19 de Janeiro de 2013, aconteceu aquela que terá sido provavelmente a pior tempestade da história recente da Gândara. O principal efeito visível da tempestade foi o derrube de dezenas de milhares de árvores por toda a região. Adicionalmente, os estragos provocados pela tempestade fizeram com que muitos milhares de habitantes ficassem durante alguns dias sem electricidade, sem abastecimento de água canalizada da rede pública e sem telecomunicações (fixas e móveis).

Durante várias semanas, o barulho mais ouvido em todos os recantos da Gândara foi o da sinfonia de centenas de motoserras a trabalhar em uníssono. Hoje, cerca de dois anos depois, ainda existe grande abundância de lenha na região!

Felizmente, a tempestade não provocou a perda de vidas humanas. Ajudou o facto de ter ocorrido de madrugada, em horas em que são raras as pessoas que circulam fora de casa. O facto de em Portugal haver a tradição da construção civil de edifícios com materiais sólidos, também foi importante.

Diga-se em abono da verdade que esta tempestade não atingiu a potência destruidora de um furacão tropical ou de um tornado do Midwest americano. Mas foi algo de inédito para a realidade da região. Algo a que os habitantes locais não estavam habituados. Será que as tão faladas Alterações Climáticas ainda nos irão reservar mais algumas surpresas desagradáveis como esta?

Excepcionalmente, não tirei fotos no rescaldo da tempestade. Apenas tirei algumas fotos dos vestígios visíveis cerca de um mês depois, em meados de Fevereiro de 2013, durante caminhadas ou passeios de bicicleta. São algumas dessas fotos que hoje aqui deixo, tiradas algures nos Concelhos de Cantanhede, Figueira da Foz e Montemor-o-Velho. As últimas três fotos ilustram o esforço de alguns proprietários para recuperar algumas das pequenas árvores caídas, mas sobreviventes. Também coloquei dois vídeos retirados do YouTube, que ilustram os danos provocados pela tempestade no Concelho de Mira.

The great storm of 19/01/2013:

Exactly two years ago, in the hour i'm writing this post, was starting the worst storm faced by the Region of Gândara during the last decades.

Of course this storm was not as destructive as a Tropical Hurricane or as a Midwest Tornado. But it was something very unusual for the portuguese weather reality. Was it a nasty surprise caused by the Climate Changes? I really don't know.

Many thousands of trees fell throughout the region. Thousands of people were temporarily deprived of electricity,  water supply and communications, during some days. But, fortunately, no one died in the region. During the hours of the storm, most people were sleeping at home. Thank god!

During weeks after the storm, we could hear the noise of chainsaws in everyplace. We still have plenty of firewood in the region!

Exceptionally, i did not take photographs in the days after the storm. I don't had any will to do so! I just took some pictures a month later, in February of 2013. I present some of those pictures, taken somewhere in the Municipalities of Cantanhede, Figueira da Foz and Montemor-o-Velho, during hikes or bike rides. I also put two videos, taken from YouTube, showing the damage caused by the storm in the Municipality of Mira.


Praia do Palheirão / Palheirão Beach:



Lagoa da Vela:


Lagoa das Braças:



...




Recuperação de pequenas árvores caídas:
Recovering small fallen trees:




...
Efeitos da Tempestade no Concelho de Mira (vídeos retirados do Youtube):
 Damage caused by the storm in the Municipality of Mira (videos taken from YouTube):

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Arte Xávega à moda antiga:

A Arte Xávega é uma técnica tradicional de pesca costeira de arrasto, que ainda é praticada em algumas localidades costeiras de Portugal, sobretudo no Litoral Centro, incluindo na Praia de Mira e na Praia da Tocha. Outrora muito praticada ao longo de toda a costa portuguesa, entrou em decadência nas décadas de 60 e 70 do século XX, tendo desaparecido de grande parte das localidades costeiras do país. Nos locais onde sobreviveu, passou por um processo de modernização tecnológica, que lhe permitiu trabalhar com um número bastante mais reduzido de pescadores, bem como poupar estes do esforço muscular hercúleo que lhes era exigido no passado. Apesar destas transformações, esta arte ainda conserva um carácter tradicional, em que sobrevive muita da herança histórica, cultural e social de tempos passados.

Hoje deixo aqui alguns vídeos antigos retirados do Youtube, filmados em película nos velhos tempos do cinema a preto e branco, que nos dão um retrato fiel de como era a Arte Xávega à moda antiga:

The "Arte Xávega" in the old times:

The "Arte Xávega" is an ancient and traditional fishing technique, who is still used in a few coastal settlements of Portugal, mainly in the Central Region, including the Beaches of Mira and Tocha.

The "Arte Xávega" entered in decadence in the 60s and 70s, and disappeared in many places of the portuguese coast. In the few places where it survived, it underwent a small technological evolution, but retained many of its traditional, technical, cultural and social characteristics.


In these few movies, taken from Youtube, the reader can see how was the real "Arte Xávega" in the old times:
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Onde os Bois Lavram o Mar. Filme incompleto, filmado em 1959 na Praia de Mira (no Concelho de Mira).

Onde os Bois Lavram o Mar ("Where the Oxen Plow the Sea"). Part of a portuguese film from 1959, filmed in Mira Beach (Municipality of Mira).


  Mudar de Vida. Filme português de 1966, realizado pelo cineasta português Paulo Rocha (1935-2012) (Clicar!). As cenas do filme que decorrem entre os minutos 34 e 41 da película, filmadas em 1966 na Praia do Furadouro (no Concelho de Ovar), dão um retrato bastante realista de como era a Arte Xávega nesta época.

Mudar de Vida (can be translated to "Change of Life"), is a portuguese movie from 1966, made by director Paulo Rocha (1935-2012) (Click!). In the movie scenes between the minutes 34 and 41, filmed in Furadouro Beach (in the Municipality of Ovar), we can see how was the "Arte Xávega" in the old times.

Fishy Business In Portugal. Curta-metragem de actualidades cinematográficas, filmada em 1935 em Portugal.

Fishy Business In Portugal. Newsreel movie, filmed in 1935 in Portugal.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Barrinha de Mira 360º x 2:

Apresento dois vídeos de 360º e algumas fotografias, obtidos na Barrinha de Mira em finais de Setembro de 2010, com o Outono a substituir o Verão nesta lagoa costeira.
A Barrinha de Mira é uma lagoa costeira de água doce, situada na Praia de Mira (localidade também conhecida por Palheiros de Mira), na Freguesia de Praia de Mira e Concelho de Mira, no Distrito de Coimbra, na Região Centro de Portugal. 

Barrinha de Mira 360º x 2:


Two panoramic videos of 360 degrees and a few photos, all taken in Barrinha de Mira in one of the last days of September of 2010, with the Autumn arriving to this beautiful place.
Barrinha de Mira, in Portugal, is a coastal lagoon of fresh water, located in "Praia de Mira" (Mira Beach), in the Municipality of Mira and District of Coimbra.

Localização / Location: