O Moinho do Piroto, propriedade do senhor Dário Acúrcio, está situado na localidade de Lomba do Poço Frio, na Freguesia do Bom Sucesso e Concelho da Figueira da Foz.
É um moinho de vento tradicional gandarez, embora de construção relativamente recente, com menos de uma década de vida. Contudo, para o construir, foram utilizadas algumas peças bastante antigas e originais, sobreviventes de um antigo moinho que existiu há perto de um século nas proximidades da Lagoa da Vela, a algumas centenas de metros deste local. O nome do actual moinho é uma homenagem ao antigo moleiro do velho moinho desaparecido, que era conhecido na região precisamente pela alcunha de "Piroto". Pode ler um texto com a história resumida deste moinho na última das fotos que aqui publico.
The "Moinho do Piroto" is a traditional windmill from this region (click to read more in english about these windmills here, here or watch this video). This windmill was built in 2014, but with a few remaining pieces from an old windmill from a century ago, whose ancient miller was known by the nickname of "Piroto".
Recentemente voltei a reencontrar o filme "A Promessa" no Youtube (o primeiro vídeo em cima). Vi este filme pela primeira vez há uns 20 anos, na velha RTP 2, mas desde então não voltei a ter oportunidade de o rever, até agora.
"A Promessa" (clicar aqui ou aqui para obter mais informações), é um filme portuguêsde 1972-1973 (encontro informações com ambas as datas), realizado pelo cineasta António de Macedo (clicar). Tem como actores principais Guida Maria e Sinde Filipe, dois actores relativamente bem conhecidos pela generalidade do público português, sobretudo pela sua presença frequente em telenovelas e séries exibidas pelos canais nacionais de televisão, embora também tenham longas carreiras no teatro e no cinema.
E qual o motivo porque apresento este filme neste blog?
Resolvi apresentar este filme neste blog porque ele constitui um documento muito importante sobre a história da Praia da Tocha (na Freguesia da Tocha e Concelho de Cantanhede), localidade também conhecida pela antiga designação de Palheiros da Tocha, pela qual ainda é denominada em muitos mapas.
Muitas das cenas exteriores deste filme de 1972-1973 (embora não todas), foram rodadas na Praia da Tocha, tendo algumas delas tido como cenário os Palheiros, antigas habitações tradicionais de madeira que durante muito tempo constituíram a quase totalidade das habitações desta localidade (clicar aqui para ler um artigo do blog dedicado aos antigos palheiros da Praia da Tocha, ou aqui, para ler um outro artigo dedicado aos actuais palheiros), até começarem a desaparecer durante as décadas de 70, 80 e princípios dos anos 90, substituídos por habitações modernas. No filme podemos ver em pormenor o aspectos exterior de dezenas destas habitações tradicionais entretanto desaparecidas, algumas das quais nunca foram captadas em fotografia para a posteridade.
Neste filme participaram muitos habitantes locais, como figurantes, embora os seus nomes não figurem na reduzida ficha técnica do filme, como era normal naquele tempo. Contudo, em abono da verdade, há que referir que a ficha técnica inclui uma referência à população local.
Já ouvi falar no caso específico de alguns desses figurantes, neste caso algumas senhoras idosas das Berlengas (nome de uma localidade desta freguesia). Penso que também terão participado algumas pessoas da região em papéis secundários, pessoas essas com alguma experiência em teatro amador, embora eu não tenha a certeza disso.
O filme também teve uma cena interior filmada na Igreja Matriz da Tocha, que aparece igualmente num curto plano exterior que a antecede.A maior parte das cenas de interiores do filme foram rodadas num estúdio, em Lisboa.
Apresento também um segundo vídeo encontrado no Youtube, de uma entrevista ao realizador do filme, António de Macedo, efectuada pela Bairrada TV em 2014. Nesta entrevista o realizador aborda a sua carreira cinematográfica e fala em especial deste filme, de como nasceu o projecto, da escolha dos locais onde filmou, de várias histórias passadas durante a rodagem do filme, das observações curiosas que fez da cultura e dos costumes dos habitantes locais e da forma como o filme foi recebido no conceituado Festival de Cannes. Apesar da idade avançada, o realizador apresenta uma lucidez, memória e capacidade de comunicação extraordinários.
Se algum leitor conhecer algumas histórias interessantes relacionadas com a rodagem deste filme, por ter assistido a ela na época ou por histórias que ouviu contar de pessoas mais idosas, peço-lhe que utilize a caixa dos comentários para partilhar connosco o que sabe acerca dele.
The film "A Promessa" (The Vows) and Praia da Tocha:
Recently i found the portuguese film "A Promessa" (The Vows) on Youtube (see the first video). I saw this filme some twenty years ago, in RTP 2, a portuguese televison channel dedicated to cultural subjects, but not since then.
I chose to present this film because it is an important document about the history of Praia da Tocha (Tocha Beach), also known as Palheiros da Tocha, a coastal village near the sea, located in the Civil Parish of Tocha and Municipality of Cantanhede.
Most outside scenes of this film were filmed in Praia da Tocha, around 1972-1973, showing the sea, the dunes, the forest and, the most important, the "Palheiros", traditional wooden houses, very small in size, who were typical of this village. I said "were typical", because most of the Palheiros disappeared during the 70s, 80s and early 90s, being replaced by modern houses.
Many local inhabitants participated in the film, as movie extras. I think that a few other inhabitants of this region, with some experience in amateur theater, appeared in a few supporting or secondary roles, but i'm not sure about it.
The second video is an interview to the film director António de Macedo (made by Bairrada TV, an internet TV channel from the region), about his career and this movie, but infortunately it is only available in portuguese.
Na aldeia do Casal Novo (na Freguesia de Quiaios e Concelho da Figueira na Foz), existe um moinho gandarez tradicional, o qual é facilmente visível, por se localizar ao lado da Estrada Nacional 109. É um dos poucos moinhos de vento gandareses tradicionais que restam nesta região, embora outrora tenham sido numerosos.
Há uns meses, depois de muito tempo sem passar por esta zona do Sul da Gândara, reparei que este moinho tinha um aspecto diferente, sinal de que teve uma intervenção de restauro, feita num dos últimos anos, em data que desconheço.
Numa conversa com uma pessoa desta zona (e a fazer fé nas suas palavras), foi-me dito que o moinho terá ficado operacional após o restauro, mas que, uns meses depois, terá voltado a ficar inoperacional por ter sido assaltado. Durante esse assalto, alguém terá levado a grande peça metálica que conduz a força motriz das velas para as mós do moinho, peça essa difícil de substituir. (Peço desculpa aos leitores por não saber a denominação técnica dessa peça.) Porque alguém roubaria peças de um moinho? Talvez por pura malvadez? Talvez porque essa peça de ferro bastante pesada ainda renda alguns euros num receptador de ferro velho menos consciencioso? Mais um sinal dos tempos preocupantes que Portugal atravessa.
Deixo aqui algumas fotos que ilustram a evolução recente deste moinho. Essas fotos foram tiradas em Abril de 2016, Janeiro de 2010 e Outubro de 2007, sempre durante voltas de bicicleta. As fotos mais antigas também foram incluídas nos minutos finais de um vídeo que fiz em 2011 sobre os Moinhos de Vento Gandareses, que aqui deixo.
Os Moinhos Gandareses distinguem-se essencialmente de outros tipos de moinhos, por:
- Serem de pequeno tamanho e quase totalmente construídos em madeira.
- Estes Moinhos têm um formato de
trapézio isósceles, quase triangular, pois o lado virado para o vento
tem uma largura muito reduzida. Uma notável concepção aerodinâmica
empírica! A maioria dos outros tipos de moinhos possuem uma forma
circular.
- O Moinho é concebido de forma a que a
totalidade da sua estrutura possa rodar na horizontal, com a força física de uma única pessoa, de forma a
ajustar a posição das velas com a direcção do vento, em determinado
momento. Mais uma característica que o diferencia da maior parte dos
outros moinhos, nos quais apenas o mastro e o telhado se movimentam para
se adequarem à direcção do vento. O moinho é edificado sobre uma
pequena elevação artificial de terra (em zonas planas) ou no topo de uma
colina / duna. Para possibilitar a rotação, o moinho é construído de
uma forma em que apenas três partes móveis estão em contacto com o solo:
>>> Duas rodas de madeira, as
quais se movimentam numa estrutura / carril circular (usualmente
construída em pedra calcária, tábuas de madeira ou no caso dos moinhos
mais recentes, em cimento).
>>> Uma grande pedra (por
exemplo uma antiga mó), no centro da estrutura circular, a qual serve de
base para o eixo de rotação do moinho, em pedra ou em ferro.
The Windmill of Casal Novo:
In the village of Casal Novo (in the Civil Parish of Quiaios and Municipality of Figueira da Foz), there is one traditional windmill from this region. This "Moinho de Vento Gandarez" is very visible, as it is located near the EN-109 (National Road 109). It's one of the few remaining windmills, from an ancient past when there were many of them in this region.
After a long time without traveling in this area, a few months ago i noticed that this windmill was with a different appearence, an indication that it has been restored.
In a conversation with a person from this area, it was told to me that the windmill became again operational after the restoration, but, unfortunately, it was robbed a few months after, by someone who stole a big iron component of the windmill's mechanism. It was very sad to me to hear that.
Today i publish here some photo to ilustrate the evolution of this windmill during the last years. All the photos were taken during bike rides, in April of 2016, January of 2010 and October of 2007. The photos of 2010 and 2007 were used in a video i made in 2011, about this type of traditional windmills. (See the video bellow.)
This type of windmills has some unique features:
- The windmills have a small size and
are built almost entirely with wood boards, mainly pine tree wood. This
region has a sandy soil, almost without stone, and so, wood and adobes
were the main raw materials for construction, in the past.
- They have the shape of an isosceles
trapezoid, actually almost triangular, because the building side who
face the wind has a very small width, in an empirical aerodynamic
design.
- The entire structure of the windmill
was designed to be rotated by the physical strenght of only one man (by
the miller), around a central axis, to match the sails with the wind
direction. So, only three parts of the windmill are in contact with the
ground:
>>> The rotation axis, formed by one conic stone above an old mill stone.
>>> Two wooden wheels, who
rotate in a circular rail structure (usually made of limestone stones,
wooden boards, or in concrete (in the most recent windmills)).
Até há cerca de 20 a 30 anos atrás, os Palheiros faziam parte integrante da paisagem da Gândara. Existiam dezenas de milhares deles espalhados pela região. Quase todos os agregados familiares que se dedicavam à agricultura tradicional tinham vários palheiros nos seus terrenos.
Os Palheiros eram construções tradicionais que serviam para armazenar plantas forrageiras usadas nas alimentação do gado doméstico, sobretudo gado bovino (bois e vacas), ou caprino (cabras), ovino (ovelhas) e asinino (burros), em menor escala. Entre os vários tipos de plantas forrageiras que eram armazenadas nos Palheiros, incluem-se fenos, pastos e a palha do milho. Os Palheiros da Gândara coexistiam com um outro tipo de construção tradicional usada para guardar plantas forrageiras, a "Cabana", de que falarei mais adiante, em outro artigo.
(Não confundir estes "Palheiros" com outro tipo de "Palheiros", pequenas habitações tradicionais de madeiraque existiam no passado na Praia da Tocha (ou Palheiros da Tocha), na Praia de Mira (ou Palheiros de Mira) e outras pequenas localidades costeiras da Região Centro, com pequenas diferenças locais na sua construção.)
A construção de um palheiro iniciava-se com a colocação de um comprido tronco de madeira (geralmente de pinheiro ou eucalipto), profundamente cravado no solo na vertical, que lhe dava estabilidade e resistência. Depois a palha ia sendo colocada em volta desse tronco, de forma circular, normalmente por uma equipa de duas pessoas (geralmente um casal de agricultores). Uma pessoa ficava no solo a carregar a palha com uma comprida forquilha de madeira (na maior parte das vezes o homem). Essa palha era entregue à pessoa que ficava em cima do palheiro (geralmente a mulher), que a ia colocando no sítio.
Assim o Palheiro ia crescendo lentamente na vertical, podendo atingir 4, 5, 6 ou 7 metros de altura. Acabada a construção do palheiro, a pessoa em cima tinha de descer por uma escada. Depois, durante os meses seguintes, a palha ia sendo retirada lentamente por baixo, à medida que ia sendo necessária para a alimentação do gado, até o palheiro desaparecer por completo e ser substituído por outro.
Devo confessar que passei uma parte da minha infância a brincar nos palheiros dos meus avós (assim como assisti à sua construção), dos quais tenho boas recordações.
Durante as últimas duas a três décadas, os Palheiros foram desaparecendo da Gândara. A Agricultura tradicional declinou e a moderna Agro-Pecuária usa preferencialmente silagens e fardos de palha para conservar as plantas forrageiras usadas na alimentação do gado.
Ainda vão existindo alguns Palheiros pela Gândara, mas já são uma raridade. Daí a minha surpresa em ter encontrado um grupo de palheiros perto de uma casa dos Pelicanos (aldeia localizada na Freguesia de Arazede e no Concelho de Montemor-o-Velho), durante uma volta de bicicleta realizada em Outubro de 2015, dos quais deixo aqui duas fotografias.
There are still "Palheiros" (haystacks) in Gândara:
The "Palheiros" (portuguese word for "haystacks") are traditional constructions, who were very commom in the region of Gândara in the past. The "Palheiros" were used to store several types of hays, used as fodder to feed livestock, mostly cows, but also sheep, goats or donkeys.
There was another traditional type of construction, also used to store hay, but more complex, the "Cabana" (can be translated to "hut"). I will talk about it in other article.
(The word "Palheiro" is also used to designate one type of traditional wooden houses, small in size, who were very commom in the past in Praia da Tocha (Tocha Beach, also known as Palheiros da Tocha) and Praia de Mira (Mira Beach, also known as Palheiros de Mira), that almost disappeared nowadays. Do not confuse the two types of "Palheiros".)
There was another traditional type of construction, also used to store hay, but more complex, the "Cabana" (can be translated to "hut"). I will talk about it in other article. As i said before, the Palheiros were very commom in the Region, 30 years ago. There were tens of thousands of Palheiros. Almost all people who used to work in the traditional agriculture, had a few palheiros in their lands.
But during the last decades, they disappeared in the region, for several reasons. The traditional economy, based in secular forms of agriculture, colapsed with the economical evolution of the country. In the modern agriculture, livestock animals are feed with silage or hay bales. So, the traditional palheiros lost their place in local economy.
They almost disappeared in the region, but they are not extint. I present two photos of a group of small "Palheiros" (in the past, they could be bigger, 4 to 7 meters tall). The photos were taken in October of 2015 (during a bike ride), in the village of Pelicanos (means "Pelicans"), located in the Civil Parish of Arazede and in the Municipality of Montemor-o-Velho. I spent many hours of my childhood playing in the Palheiros of my grandparents!
Na aldeia dos Cantos da Fervença, no Concelho de Cantanhede, existe um pequeno núcleo de moinhos de água, composto por três edifícios distintos. Todos aparentam estar bem cuidados, tendo passado por obras de conservação em anos recentes.
Pelos dados de que disponho, penso que a aldeia dos Cantos da Fervença está actualmente integrada na Freguesia de São Caetano, embora tenha feito parte da Freguesia de Cadima até há poucos anos atrás. Por curiosidade, nesta zona do Concelho de Cantanhede existem três aldeias vizinhas com nomes relacionados, mas pertencentes a três freguesias distintivas: Fervença (Freguesia da Sanguinheira), Olhos da Fervença (Freguesia da Cadima) e Cantos da Fervença (Freguesia de São Caetano)! Singularidades das divisões administrativas portuguesas!
Na segunda caminhada matinal, em Outubro de 2014, encontrei um dos moinhos aberto e em funcionamento. A sua proprietária e/ou moleira, uma senhora idosa cujo nome desconheço, foi simpática e permitiu-me filmar o interior do moinho em funcionamento. Nessa ocasião, o moinho estava regulado para produzir "milho partido", ao invés de farinha, como é normal nos moinhos. Esta é um produção alternativa que vai permitindo manter alguns dos moinhos da Gândara em funcionamento, quando as encomendas para produzir farinha escasseiam.
O "milho partido" é obtido quebrando o grão em apenas alguns pequenos pedaços, ao contrário da farinha, em que o grão é reduzido a pó. Este milho partido é utilizado na criação de aves domésticas (galinhas, patos...), como primeiro alimento das aves durante as suas primeiras semanas de vida, quando ainda não conseguem comer os grãos de milho normais, grandes de mais para os seus minúsculos bicos.
Para finalizar o artigo, refiro que nas proximidades destes moinhos existe uma curiosa ponte pedonal (ver as últimas duas fotos), bastante conhecida entre aqueles que costumam fazer caminhadas ou praticar BTT nesta zona.
The Watermills of Cantos da Fervença:
In the village of Cantos da Fervença, in the Municipality of Cantanhede, there is a small group of water mills, composed by three distinct buildings. All appear to be well maintained.
From the data I have, I think the village of Cantos da Fervença is currently part of the Civil Parish of São Caetano, although it has been part of the Civil Parish of Cadima, a few years ago. Out of curiosity, in this area from the Municipality of Cantanhede, there are three neighboring villages with related names, but belonging to three different civil parishes: Fervença (Civil Parish of Sanguinheira), Olhos da Fervença (Civil Parish of Cadima) and Cantos da Fervença (Civil Parish of São Caetano)! Singularities of the Portuguese administrative divisions!
During the second morning hike, in October 2014, I found one of the mills open and running. The miller, an old lady whose name i don't know, was friendly and allowed me to film the interior of the mill, when it was working. At that day, this watermill was set to produce "milho partido" (can be translated to "broken corn"), instead of flour, as it is normal in the watermills or windmills. This is an alternative production, that allow to keep some of the watermills in operation, when there are no orders to produce flour.
The "broken corn" is obtained by breaking the grains in only a few small pieces, unlike flour, where the grains are reduced to powder. This "broken corn" is used in the traditional poultry production (chickens, ducks...), as the first food of the birds, during their first weeks of life, when they can not eat normal corn, since the grains are too large for their tiny beaks.
Near the watermills, there is an odd and narrow pedestrian bridge (see the last two pictures)!