quarta-feira, 9 de março de 2016

Ainda há Palheiros na Gândara!

Até há cerca de 20 a 30 anos atrás, os Palheiros faziam parte integrante da paisagem da Gândara. Existiam dezenas de milhares deles espalhados pela região. Quase todos os agregados familiares que se dedicavam à agricultura tradicional tinham vários palheiros nos seus terrenos.
Os Palheiros eram construções tradicionais que serviam para armazenar plantas forrageiras usadas nas alimentação do gado doméstico, sobretudo gado bovino (bois e vacas), ou caprino (cabras), ovino (ovelhas) e asinino (burros), em menor escala. Entre os vários tipos de plantas forrageiras que eram armazenadas nos Palheiros, incluem-se fenos, pastos e a palha do milho. Os Palheiros da Gândara coexistiam com um outro tipo de construção tradicional usada para guardar plantas forrageiras, a "Cabana", de que falarei mais adiante, em outro artigo.

(Não confundir estes "Palheiros" com outro tipo de "Palheiros", pequenas habitações tradicionais de madeira que existiam no passado na Praia da Tocha (ou Palheiros da Tocha), na Praia de Mira (ou Palheiros de Mira) e outras pequenas localidades costeiras da Região Centro, com pequenas diferenças locais na sua construção.)
 
A construção de um palheiro iniciava-se com a colocação de um comprido tronco de madeira (geralmente de pinheiro ou eucalipto), profundamente cravado no solo na vertical, que lhe dava estabilidade e resistência. Depois a palha ia sendo colocada em volta desse tronco, de forma circular, normalmente por uma equipa de duas pessoas (geralmente um casal de agricultores). Uma pessoa ficava no solo a carregar a palha com uma comprida forquilha de madeira (na maior parte das vezes o homem). Essa palha era entregue à pessoa que ficava em cima do palheiro (geralmente a mulher), que a ia colocando no sítio.
Assim o Palheiro ia crescendo lentamente na vertical, podendo atingir 4, 5, 6 ou 7 metros de altura. Acabada a construção do palheiro, a pessoa em cima tinha de descer por uma escada. Depois, durante os meses seguintes, a palha ia sendo retirada lentamente por baixo, à medida que ia sendo necessária para a alimentação do gado, até o palheiro desaparecer por completo e ser substituído por outro.
Devo confessar que passei uma parte da minha infância a brincar nos palheiros dos meus avós (assim como assisti à sua construção), dos quais tenho boas recordações.
Durante as últimas duas a três décadas, os Palheiros foram desaparecendo da Gândara. A Agricultura tradicional declinou e a moderna Agro-Pecuária usa preferencialmente silagens e fardos de palha para conservar as plantas forrageiras usadas na alimentação do gado.
Ainda vão existindo alguns Palheiros pela Gândara, mas já são uma raridade. Daí a minha surpresa em ter encontrado um grupo de palheiros perto de uma casa dos Pelicanos (aldeia localizada na Freguesia de Arazede e no Concelho de Montemor-o-Velho), durante uma volta de bicicleta realizada em Outubro de 2015, dos quais deixo aqui duas fotografias.
A título de curiosidade, estive a pesquisar sobre os palheiros tradicionais pela internet, tendo reparado que ainda existem muitos palheiros parecidos com os antigos palheiros tradicionais gandareses (mas não sendo  propriamente iguais na sua estrutura), nas regiões rurais da Roménia (clicar para abrir o link).

There are still "Palheiros" (haystacks) in Gândara:

The "Palheiros" (portuguese word for "haystacks") are traditional constructions, who were very commom in the region of Gândara in the past. The "Palheiros" were used to store several types of hays, used as fodder to feed livestock, mostly cows, but also sheep, goats or donkeys.
There was another traditional type of construction, also used to store hay, but more complex, the "Cabana" (can be translated to "hut"). I will talk about it in other article.

(The word "Palheiro" is also used to designate one type of traditional wooden houses, small in size, who were very commom in the past in Praia da Tocha (Tocha Beach, also known as Palheiros da Tocha) and Praia de Mira (Mira Beach, also known as Palheiros de Mira), that almost disappeared nowadays. Do not confuse the two types of "Palheiros".)


There was another traditional type of construction, also used to store hay, but more complex, the "Cabana" (can be translated to "hut"). I will talk about it in other article.

As i said before, the Palheiros were very commom in the Region, 30 years ago. There were tens of thousands of Palheiros. Almost all people who used to work in the traditional agriculture, had a few palheiros in their lands.

But during the last decades, they disappeared in the region, for several reasons. The traditional economy, based in secular forms of agriculture, colapsed with the economical evolution of the country. In the modern agriculture, livestock animals  are feed with silage or hay bales. So, the traditional palheiros lost their place in local economy.

They almost disappeared in the region, but they are not extint. I present two photos of a group of small "Palheiros" (in the past, they could be bigger, 4 to 7 meters tall). The photos were taken in October of 2015 (during a bike ride), in the village of Pelicanos (means "Pelicans"), located in the Civil Parish of Arazede and in the Municipality of Montemor-o-Velho.


I spent many hours of my childhood playing in the Palheiros of my grandparents!

In my web searches, i found that there are still many haystacks in rural areas of Romania, who are very similar to the old Palheiros from this region, with only a few differences (click to open link).



Localização / Location:

2 comentários:

Jomapa disse...

Bruno:
Parabéns pelo bolg e pela descrição do palheiro.
Eu ousaria acrescentar que no final era colocada uma camada de rama de pinheiro verde para que a cúpula ficasse o máximo possível estanque à chuva. A forquilha grande que falas era denominada de forcado. Artesanal e feita de madeira em forma de tridente, a maior parte das vezes era curtada de uma planta já com parte do formato.

Bruno E. Santos disse...

Obrigado pela visita e pela informação adicional que acrescentou.

Neste tipo de posts, elaboro os textos a partir das poucas recordações que ainda conservo na memória, por isso é natural que existam várias omissões ou incorrecções. Logo agradeço a qualquer leitor interessado que use este espaço para acrescentar os conhecimentos que possui.